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CANTOR TONI GARRIDO VISITA CÂMPUS DA RURAL EM NOVA IGUAÇU E EMOCIONA COM SUA HISTÓRIA E SUCESSOS

Dentro da programação do Projeto “FUNARJ Artes e Leitura”, o cantor, compositor, ator e vocalista da banda de reggae Cidade Negra Antônio Bento da Silva Filho, popularmente conhecido como Toni Garrido, apresentou-se, no último dia 4/12, no auditório do câmpus Nova Iguaçu (Instituto Multidisciplinar), da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.
Desde 5 de novembro até 5 de dezembro, o projeto “FUNARJ Artes e Leitura” foi desenvolvido em diversos locais, como teatros, casas de cultura e universidades, apresentando shows e palestras reunindo criadores, artistas e pensadores do cenário cultural brasileiro. O objetivo foi o de realizar um festival de circulação e saber, uma leitura criativa e acurada da vida contemporânea, através de diferentes tipos de linguagens artísticas.
Em sua fala, cujo tema foi “Encontro com a Arte e o Pensamento de Toni Garrido”, o artista conversou descontraidamente com o público que compareceu para ouvi-lo. Em determinados momentos, entremeou o bate-papo cantando algumas músicas de sucesso, sempre acompanhado pelos fãs e admiradores.

Um retorno às origens

Ele ressaltou ser um prazer estar de volta a esse universo de troca e compartilhamento de ideias, saberes e fazeres múltiplos. Garrido garantiu que não vem ensinar nada, ao vir para o espaço universitário. Ao contrário, vem para aprender, trocar energia e conhecimento com os estudantes e professores, tirar dúvidas, avançando e contribuindo coletivamente no amadurecimento cultural das pessoas e dele mesmo.
Quanto ao panorama cultural atual do Brasil, ele o classifica como “animador” e ao mesmo tempo “frustrante”. Ele explicou que esse brilhantismo, essa genialidade de talentos que surgem de forma avassaladora no cenário artístico nacional é sempre travado pelo sistema, que não privilegia a Arte e a Cultura. Ele apontou que em nosso país tem sempre que “ralar” muito para se conseguir chegar a algum lugar de destaque, para que o resultado seja “bacana”. Isso quando se tem a sorte de despontar, de sair da invisibilidade do anonimato. Ele reclamou do desinteresse dos sucessivos governos pela questão cultural, traduzido na inexistência de patrocínios, apoios e incentivos para a retomada de um projeto cultural consistente e que desperte a consciência da cidadania das pessoas, para um processo de evolução e de mudanças.
O vocalista da banda Cidade Negra disse ser impensável se passar a um patamar superior de cidadania sem garantir comida, saúde e cultura para todos. Para ele, ainda assim, é preciso também que todos conquistem trabalho, amor, paz e descanso.

Cultura na Baixada

Em relação ao panorama cultural da Baixada Fluminense, Toni Garrido declarou-se surpreso com a evolução da região, em comparação há 30 anos. Hoje, segundo ele, estamos muitas e muitas milhas à frente. O cantor revelou que tínhamos aqui naquela época (final da década de 80 e início dos anos 90) muitos “artistas ativistas”, que não recebiam apoio nenhum mas que militavam na área cultural porque a Arte é ativista. Ele contou que graças a essa intensa mobilização dos artistas ativistas da arte e da cultura é que foi possível que um ou outro saísse do que chamou de “prisão”, ou seja, do anonimato. Era um esforço de resistência digno de elogios, constatou. Garrido acrescentou que hoje temos uma quantidade muito maior de artistas do que naquela ocasião, além de alguns núcleos de cultura espalhados pela Baixada Fluminense e que fortalecem e ajudam a impulsionar esses artistas. E do ponto de vista governamental, existe mais seriedade e compromisso com a questão cultural do que havia antes. Ele destacou que há projetos interessantíssimos acontecendo e dependem sempre da mudança. Espera-se que ela traga medidas destinadas à melhoria deste cenário, e não visando a destruição do que foi construído até aqui. O vocalista do Cidade Negra garante que há, agora, muito mais defensores e protetores da Arte e da Cultura do que havia 30 anos atrás.
Quanto aos artistas da Baixada, ele reconheceu que há que se ter estágios artísticos a serem ultrapassados. Tirando aqueles indivíduos brilhantes e inacreditáveis, Garrido declarou que acredita muito no desenvolvimento da técnica, como elemento aperfeiçoador do fazer artístico. Segundo ele, um artista talentoso sempre vai melhorar com a prática e com a técnica que desenvolver no seu trabalho. Em suma, tudo o que se faz na vida de bom pode se tornar melhor se houver estudo e o emprego de uma técnica que aperfeiçoe o que se faz. Na Arte, acontece o mesmo. Ele afirmou que existem grandes artistas na Baixada Fluminense, que se tornarão ainda melhores se tiverem apoio, estudo e acesso à técnica, além de espaços físicos para mostrarem seus talentos. Ele classificou o Centro Cultural Donana, localizado em Belford Roxo, como um espaço “técnico”, que descobre talentos inatos e que não abandona o artista. Segundo ele, o músico Dida (coordenador daquele espaço cultural) é um grande pesquisador e professor, que atua com dedicação e bastante profissionalismo na busca e revelação de novos talentos artísticos.

Jaime Leibovitch

Acompanhando Toni Garrido, tivemos também a participação no evento do ator, psicólogo e professor de teatro Jaime Leibovitch. Ele afirmou ser muito prazeroso o trabalho que vem desenvolvendo com o músico do Cidade Negra, pois tem aprendido muito com Garrido nas palestras pelo país afora. Leibovitch, atualmente, está afastado do trabalho profissional como psicólogo, dedicando-se mais ao contato com as artes, com atuação em recentes novelas e minisséries exibidas na televisão. Ele explicou que sua origem artística vem do teatro, onde dirigiu e atuou em algumas produções de peças.
Em sua palestra – sempre entremeada com algumas canções – Toni Garrido contou que foi muitas vezes vítima de bullying na escola e de racismo em seu convívio social, chegando ao ponto de certa vez ser retirado à força do elevador social do prédio onde residia por uma moradora racista, que o forçou a usar o elevador de serviço, pela condição de negro dele. Ele lembrou com carinho de Ofélia, que o levou para morar com ela ainda criança-adolescente, a pedido de sua mãe, Teresa, para poder estudar num colégio melhor. Garrido é nascido na Vila Kennedy, em Duque de Caxias, e sempre batalhou pela vida com extrema dificuldade, em razão de viver em comunidade carente, uma marca da Baixada Fluminense. Sua mãe, Teresa, era empregada doméstica e teve, além de Toni Garrido, outras duas filhas. Com muito esforço, formou-se em Fisioterapia e passou a trabalhar na profissão, atendendo pessoas da comunidade onde residia. Mas desde cedo, já despertava a veia artística para a música. Uma vez, prometeu a sua mãe que daria a ela uma vida digna e uma “perna de ouro”, pois ela sofria com problemas de circulação na perna, que dificultavam e quase impediam sua locomoção.
Mas Toni Garrido não desistiu de seus sonhos e buscou contato com outros rapazes, que curtiam e eram envolvidos com projetos musicais. Conheceu em seguida o Centro Cultural Donana, em Belford Roxo, que revelou bandas de reggae e soul black como a KMD-5 (depois rebatizada como Negril) e lá fez amizades com muitos músicos e instrumentistas, tais como Lazão, Bino Farias e Da Gama, primeiros membros integrantes do Cidade Negra, ingressando posteriormente na banda para substituir o vocalista Ras Bernardo. Em abril de 2008, Toni Garrido anunciou sua saída do Cidade Negra, depois de quatorze anos na estrada para seguir carreira solo, retornando à banda em janeiro de 2011, após quase dois anos e meio afastado. Sua volta oficial, no entanto, só ocorreria no fim de 2012, quando se juntou à banda para gravar o álbum Hei, Afro! , lançado em março de 2013. Ao todo, foram 11 álbuns, em formatos CD e DVD, que marcaram até o momento a trajetória vitoriosa e de sucesso da banda Cidade Negra, surgida na cidade de Belford Roxo e reconhecida como a capital do reggae no país.

Por Ricardo Portugal – Assessoria de Imprensa do IM/UFRRJ